CUIDA-DOR-AS/ES: HERÓIS DO MUNDO QUE “NÃO” SE SALVAM?

Por: | Tags: | Comentários: 0 | dezembro 30th, 2016

CUIDA-DOR-AS/ES: HERÓIS DO MUNDO QUE “NÃO” SE SALVAM?

Itala Daniela
Psicóloga
CRP: 02/18737

a-sombra-da-arvore

Nos últimos dias tem me ocorrido diversas reflexões acerca das pessoas que em sua profissão se disponibilizam a cuidar de outras pessoas. Aqui penso, mais especificamente, nas/nos psicólogas/os e religiosas/os. Esses dias fui assistir o filme “O Vendedor de Sonhos” e fui tomada por novas reflexões, apesar de já ter tido contato com essa história através da leitura dos livros de Augusto Cury.

Antes de prosseguir minha reflexão, preciso fazer uma digressão no que concerne a não aceitação de muitas/os psicólogas/os no acolhimento dos escritos de Cury. Primeiro, precisamos partir da premissa de que cada um olha o mundo e as relações por uma ótica e isso não inviabiliza os outros olhares, ao contrário, a pluralidade enriquece. Segundo, não é necessário acolher todos os apontamentos de alguém, mas a partir de um olhar crítico entender as possíveis sinalizações nos quais esses olhares podem nos lançar novas luzes.

Particularmente, essa história de Augusto Cury sempre me provocou, todavia, ao assistir o filme, devido as reflexões que venho tecendo, fui afetada de outros modos. O primeiro grande questionamento é de que Júlio Cesar (personagem da história) é um psicólogo renomado que sobe no 21º andar de um edifício com o objetivo de se suicidar. Essa cena choca a sociedade e até alguns profissionais pois, antes de qualquer coisa, escancara as fragilidades humanas. Na tentativa de criar máscaras e sustentar a existência, não admitimos que os profissionais da saúde, principalmente da saúde mental, adoeçam. Nesse rol, acrescento as/os religiosas/os já que esses também exercem o ofício da escuta,  mas quase que não são autorizados a se escutarem.

Escuto, cotidianamente, questionamentos do tipo: Psicóloga/o sofre? Padres e Freiras em depressão? Pastores/as se suicidando? Psiquiatras e médicos tem problemas? Como pode? Estranhamentos e perplexidades tomam a sociedade.

Enquanto interrogo me dou conta de que, talvez, ver que essas pessoas sofrem seja o escancaramento de que todas/os os seres humanos são passíveis ao sofrimento. Sim… Psicólogas/os, religiosas/os, médicos são seres humanos! Redundante dizer isso? Talvez não! Talvez estamos clamando por falas e olhares que nos lembre sempre disso.

SOMOS HUMANOS! PODEMOS SOFRER! PRECISAMOS VIVER/SENTIR!

Em um contexto social em que as tecnologias intermedeiam as relações  e as máquinas ditam o sistema, parece que esquecemos que somos gente. Achamos que a mecanização do mundo nos tornou máquinas. E sim, de certo modo, estamos mecanizados por essa lógica imediatista. Contudo, como no nosso corpo ainda não corre óleo lubrificante, mas sangue, é esse sangue que ao sagrar nos lembra a nossa humanidade.

Nesse sentido, fica uma provocação: Por que esses que são vistos como “heróis” do mundo não se salvam? Primeiramente, precisamos colocar em cheque esse heroísmo… A vida dói e é dura para todo mundo… Então, os profissionais do cuidado (aqui podemos pensar em várias profissões para além das/os psicólogas/os e religiosas/os) precisam cuidar de si… Àqueles que se dispõem a escuta da sociedade precisam apreender a se escutarem…. Àqueles que tem o ofício do cuidado diário, precisam em alguns momentos dar não ao outro para dar sim a si mesmos. Não basta acompanhar os outros na história que eles narram… É necessário convidar outros para acompanharem a história que você narra.

Por falar nisso, qual foi a última vez que, genuinamente, você pode contar de si para alguém? Não um mero contar-explicativo-informativo, mas uma verdadeira narração que convida àqueles mais íntimos a lhe acompanhar nas dores e alegrias do existir?

Quando nossas histórias de vida não são partilhadas, acumulam-se silenciadas e, ao pedirem passagem, dilaceram a alma. Viver com-partilhando não é garantia de menos sofrimento, mas é ao menos a certeza de que quando esse sofrimento apertar, quando as dores se instaurarem de modo avassala-dor, alguém, por ser testemunha de nossa história, saberá nos dar a mão e caminhar conosco.

Eu sou humana… Você é humano… E é nas relações (pluralidade) que sustentamos nossas humanidades…

Que em 2017 escolhamos acolher e nos comprometer com a nossa humanidade!

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